O último capítulo da Bolsa Amarela

janeiro 22, 2016 por lobodeceroulas - Nenhum comentário

Este livro que eu estou lendo para meus filhos mais novos tem uma história e tanto na minha vida, que eu já contei pra eles e agora vou contar para vocês! O livro é fantástico, como todos os livros da Lygia Bojunga.

Foi aos 9 anos que ganhei um tesouro de aniversário. Foi presente de uma vizinha muito velhinha, que tinha cabelos que cheiravam a laquê, bochechas pintadas de rosa e usava vestidos com golinhas bordadas. Seu nome era Dona Irene. Dona Irene foi a primeira a chegar na minha festa, assim como fazia todos os anos. Se sentou na cadeira que se sentava todos os anos, pertinho do bolo salgado. Era diabética. Todos os anos mamãe fazia o bolo que Dona Irene podia comer. Tirou o embrulho pequeno e colorido de dentro da bolsa.

Todos os anos ela me trazia uma caixa de lápis de cor! E de 12!!! Logo para mim que sonhava com a caixa enorme com 36 cores diferentes. O jeito dela me dava um pouco de medo. Ela passava a língua nos lábios várias vezes enquanto falava e cuspia bastante. Os abraços dela também eram longos demais para uma criança!  Suportei aquele abraço interminável e peguei o embrulho colorido.

Abri com rapidez! Surpresa!!!

Era um livro de capa amarela. Tinha uma bolsa desenhada e o título que dizia: A Bolsa Amarela.

Foi uma sensação estranha pra mim. Eu não tinha livros. Na minha casa só tínhamos a Coleção Barsa que continha figuras em preto e branco e textos muito extensos, com letras minúsculas demais para uma criança míope. Abri o livro desconfiada. Tantas páginas, uma bolsa com um galo e letras visíveis. As tias chegaram todas juntas e durante um tempo incalculável apertaram as minhas bochechas, me derem abraços, me sentaram em suas ancas enormes.

Celebraram minha vida durante a noite! Eu sonhava com a paz do dia seguinte! Nem bem acordei e me coloquei a ler o livro. Por vezes o fechava somente para sentir que poderia abri-lo de novo! Dormia comigo! Me acompanhava por toda a parte em minha mochila velha e marrom! Minha vida se tornou amarela!

Cheguei ao último capítulo. Que delícia e que…dor! Meu livro tão amado estava quase no fim. Eu queria muito saber como terminava a história. Mas e se terminasse? Estaria ele na minha própria bolsa, esperando pelo momento em que minhas mãos iriam deslizar por suas páginas? Como seria abri-lo pela última vez, assim como faz um pintinho com a casca que o protege durante 21 dias e o mantem aquecido, nutrido e protegido? Não aguentaria o peso desta decisão.

Recomecei o livro! De novo a alegria se fez companheira! E depois disso recomecei muitas vezes, sempre deixando para trás o fatídico capítulo…quanto tempo? 20 anos…

Quando minha filha completou 5 anos, andando por uma livraria quem eu encontro? A BOLSA AMARELA! Como a vida muda…passeei por cada página, me balancei em cada capítulo…abracei o capítulo final…pronto! Se fechou mais um ciclo!